quarta-feira, 13 de maio de 2015

Carta ao Meu Pai



Hoje, 13.5.2015, fazem 14 anos que você fez sua viagem para o Mundo Espiritual.
Neste momento quero agradecer a você, sr. Pedro Dias, pelo empenho, pelo carinho, pela proteção que sempre me foi dada. Pai, você foi e é meu grande herói. Você me ensinou tantas coisas e ao mesmo tempo não ensinou nada, apenas fez e seu exemplo valeu mais que anos de escolaridade, que foi minha grande herança: "quer ir pra festa? Vai não, pegue um livro e venha ler pra mim. O seu saber é só seu!"- "Namorado? Vá estudar, se formar, arrumar um bom emprego e depois você pensa nisso!"- nunca esqueci e morria de raiva na época... agora lhe agradeço.
Apredi a ser responsável, lutar para melhorar de vida, saber quem manda(obediencia e disciplina), ser humilde sem me humilhar, ser dura nas quedas da vida, ser forte para enfrentar as lutas desta mesma vida e sorrir... sorrir muito de todas as besteiras que a gente passa na vida!
Aprendi a festejar os verdadeiros valores: a familia, a amizade, os pais.
Grata sou, pai, por você ter segurado minha mão e me fazer orgulhosa de ter você como pai!
Lembro do carinho de me levar para passeiar todas as noites, quando você chegava cansado do trabalho, só pra me fazer dormir... eu era bem pequena, mas lembro que só dormia quando você chegava!
Pai, você foi meu modelo! Sua sabedoria não encontrei nos bancos academicos. Sua fortaleza não aprendi na escola. Valores como Caráter, Força, Coragem, Honestidade, Generosidade e maleabilidade para sobreviver, apendi com seu exemplo.
Aprendi a dirigir lhe copiando.
Aprendi a ler e interpretar por você e com voce não só os sinais da vida mas também os sinais da Lei. ("Manda quem pode, obedece quem tem juízo!")

Aprendi o caminho profissional que trilhei durante 29 anos com você: ser policial e servir à sociedade com dignidade.Com você aprendi a amar e respeitar o outro ser humano: "Tá preso, não precisa bater! Já tá humilhado. Antes de prender se faça respeitar!"


A generosidade do seu coração era infinita. Quantas vezes cheguei do colégio e via pessoas estranhas que você tinha trazido da rua para almoçar lá em casa! Aquele velhinho, nem sei o nome dele, que ia toda semana almoçar, quando eu era pequena... o homem que você encontrou morrendo de fome no pirambu e você "adotou" como filho e foi meu irmão mais velho durante sete anos, o João... e que passei dois dias chorando quando foi embora! O outro que era seu sobrinho que veio em seguida que voce terminou de criar como filho e só saiu lá de casa quando foi morto! O Raimundo... e tantas outras pessoas que você ajudava: minha casa mais parecia um centro de assistencia social, e eu era a guia daquele povo todo que vinha para os médicos, que voce conseguia, e saiam com roupas, que voce dava o dinheiro pra comprar, remédios que voce arranjava nem sei como, e muita, muita esperança! E voce era um simples motorista policial! Nas folgas, motorista de taxi!
Aprendi Amor filial, pois você fazia tudo que podia e muitas vezes tornava o impossível possível pela vovó. Lembro das viagens malucas, quando você "roubava" o carro do Secretário de Polícia durante a noite só pra ir buscar a vovó no interior e quando a gente chegava você deixava tudo na porta e ia trabalhar, como se tivesse passado a noite dormindo! E a gente ia e voltava cantando para você não dormir na direção, e a vovó reclamando do barulho!!! Lembra? Assim aprendi a amar e respeitar aqueles que me criaram sem julgar se foram certos ou errados. Apenas sabendo que nos deram o melhor de si.



Você me ensinou a viver sem preconceito e não ter preconceito com o outro.
Você me ensinou a ser generosa.
Você me ensinou a amar, respeitar e cuidar dos mais velhos com carinho.
Voce me ensinou a usar uma arma, um revólver, mas avisou:" Foi o Diabo que inventou o revólver. Quando precisar use para salvar sua vida ou de outra pessoa, sempre com justiça. Tenha certeza que, quando ele (o revolver) lhe ajudar, vai também lhe prejudicar. Tente nunca dever a vida de uma pessoa." Isso voce me disse aos poucos, em doses homeopáticas, e levou vinte anos pra ter a lição toda, dos cinco aos vinte e cinco!
Seus ensinamentos me conduziram pela vida e me salvaram em muitas situações.
Ah! Voce nunca me bateu! E só levantou a mão pra mim duas vezes: todas as duas por que eu tinha lhe faltado com o respeito... a primeira eu era bem bequena e fugi do colégio... a segunda quando eu me meti numa briga entre você e a mamãe... e em todas as duas, você me respeitou: na primeira, minhas lágrimas com pedidos de descupas e na segunda você reconheceu que eu tinha razão! Eu estava fazendo o que você tinha me ensinado. E não me tocou! Baixou a cabeça e saiu. Você cumpria suas próprias regras! ( "Faça o que eu faço! Assim você pode me criticar!") Contudo sua moral estava no seu olhar. Isso você também me ensinou.
Cresci e criei meus filhos sob seus peceitos e hoje você tem tres grandes homens como netos que não tiveram a chance que tive: conviver contigo.
Você me ensinou a ter certeza do que quero e agir: sempre que eu tinha dúvidas e dizia -" eu penso que é assim!"- voce respondia- "Todo penso é torto!" e se calava e ia embora... levei anos para entender e não consegui, até que um dia, você já estava velho e lhe perguntei o significado; você me disse então que é bom pensar antes de agir, ter dúvidas, mas só se estas dúvidas me levarem para a ação, para o agir, "para quando o momento chegar, o chefe chamar, você ter a resposta correta na ponta da lingua"... "pois quem vive em cima do muro (sempre na dúvida) é o primeiro que leva bala!" Assim você me ensinou que viver sem um rumo não é viver, é a morte certa!


Você foi meu chocolate, meu café com leite, pois dizia que não era preto! "Preto era o diabo."- lembra?
Você foi o Negro que mais amei e que amo na vida!
O analfabeto mais sábio que conheci!
O pobre mais rico e generoso que jamais vi!
Hoje, 14 anos depois de sua partida, só lhe digo:
Pai, sou grata por ter sido meu pai. Sou orgulhosa de ter sido sua filha e te amo.

Francy
Viena, 15.3.2015

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