quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

A Porta



A Porta


Vejo uma porta. Uma grande porta no alto da escada.

Subo os sete degraus e tenho medo.

Na porta há um espelho um pouco maior que eu. Vejo refletida minha imagem. Este reflexo, contudo, não condiz com minha atitude. Sou eu e não sou eu. Ou eu acho que não sou eu?

Vejo alguem triste, com medo, subjulgado sob a pressão de milhões de olhos e milhares de bocas que falam ao mesmo tempo.

A imagem olha diretamente para mim e me pede por socorro. Somente eu posso lhe livrar daquele tormento.

Eu tambem sinto medo. Então todos os olhos se viram para mim. Milhões de dedos apontam em minha direção e milhares de bocas gritam ao mesmo tempo: “Eis o único culpado do teu sofrimento! Covarde! Assassino! Ladrão! Mentiroso!...”

As acusações continuam.

Coloco as mãos nos ouvidos para evitar a pertubação. É inutil! Continuo ouvindo milhares de vozes. Fecho os olhos e não tem jeito: continuo vendo e sentindo milhões de olhos e dedos acusadores.

Sinto que aos poucos vou sendo puxado para dentro do espelho. Luto!

Abro os olhos e estou me tornando aquele reflexo. Não quero isso! Grito dentro de mim. Não posso sair do lugar: meus pés estão criando raízes igual a imagem do espelho.

Vejo então a fechadura. A chave está ali.

So tem um jeito de não me tornar a imagem refletida no espelho: abrir a porta e entrar.

Não faço a menor ideia do que tem do outro lado. E o processo de petrificação continua, enquanto meu medo dele aumenta. O medo me paraliza!

Não! Grito dentro de mim, pois minha voz não se faz ouvir. Não sou aquela imagem do espelho. Não quero ser aquele ser enraizado num pantano e atormentado por milhões de olhos, bocas e acusado por milhares de dedos a lhe apontar as culpas. Isso eu tenho certeza!

Respiro fundo e penso na minha fé. Vejo que não sou covarde. Ou sou? Quero fugir dali e só ha uma saída: a porta!

Quantas vezes eu ja fugi? Quantas vezes voltei à mesma porta? Todas as vezes.

Num ato desesperado de sobrevivencia viro a chave, rodo a maçaneta, abro a porta e entro para um local totalmente desconhecido.

A porta se fecha imediatamente atras de mim.

Estou ofegante, ainda com medo que me parece ser maior ainda. Não sei onde estou. Estou sozinho! Estou com frio! Estou com medo!

Estou numa caverna... tem luz que não sei de onde vem, muito fraca que mal da para vislumbrar o ambiente sombrio. Parece uma caverna, mas não é! Olho para cima e vejo um céu de nuvens escuras, uma densa neblina e procuro novamente a porta atras de mim, pois ainda estou com medo. La fora tem os olhos, as bocas e os dedos... mas eles acusam a imagem no espelho e não a mim... eu sou apenas alguem parecido com aquele ser prisioneiro de seus tormentos. Não sou eu.

Não existe mais a porta. Não existe mais espelho. Não existe nada. Apenas uma parede de pedra que se ergue atras de mim e vai até onde posso ver, escondendo-se nas nuvens negras. Penso em escalar, porem é totalmente lisa, cheia de musco, lodo, de onde sai umidade.

So aquela semi escuridão.

Vejo que existe uma trilha, um caminho, bem a minha frente, cheia de folhas mortas e úmidas. Está escuro.

Procuro nas laterais alguma outra saída. Apenas pedras gigantescas se ergem ao meu redor e parece que vão me esmagar se eu permanecer ali.

Decido enfrentar a trilha. Sinto que existe um reflexo de luz a indicar o caminho sinuoso.

Dou os primeiros passos inseguros. Minha visão vai se acostumando a pouca iluminação do local e percebo que existe tipo uma escada esculpida na rocha mas logo em seguida começa uma curva.

A curiosidade supera minha imobilidade. Quero ver onde me levará aquele caminho. Eu não sei. Não posso mais ficar ali!

Decido buscar uma saída.

Vou subindo devagar e a curva se prolonga. Vou subindo e mais curva que não me deixa mais que dois metros de visão adiante. Então me impaciento e tento subir mais rápido... mais curva...nenhuma saida... nada mais que curvas.

Canso.

Paro para respirar. Estou ofegante.

O despertador toca!



Viena, 25.02.16
FMWagner




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