A Porta
Vejo uma porta. Uma grande porta no alto da escada.
Subo os sete degraus e tenho medo.
Na porta há um espelho um pouco maior que eu. Vejo refletida
minha imagem. Este reflexo, contudo, não condiz com minha atitude. Sou eu e não
sou eu. Ou eu acho que não sou eu?
Vejo alguem triste, com medo, subjulgado sob a pressão
de milhões de olhos e milhares de bocas que falam ao mesmo tempo.
A imagem olha diretamente para mim e me pede por
socorro. Somente eu posso lhe livrar daquele tormento.
Eu tambem sinto medo. Então todos os olhos se viram
para mim. Milhões de dedos apontam em minha direção e milhares de bocas gritam
ao mesmo tempo: “Eis o único culpado do teu sofrimento! Covarde! Assassino! Ladrão!
Mentiroso!...”
As acusações continuam.
Coloco as mãos nos ouvidos para evitar a pertubação. É
inutil! Continuo ouvindo milhares de vozes. Fecho os olhos e não tem jeito:
continuo vendo e sentindo milhões de olhos e dedos acusadores.
Sinto que aos poucos vou sendo puxado para dentro do
espelho. Luto!
Abro os olhos e estou me tornando aquele reflexo. Não quero
isso! Grito dentro de mim. Não posso sair do lugar: meus pés estão criando
raízes igual a imagem do espelho.
Vejo então a fechadura. A chave está ali.
So tem um jeito de não me tornar a imagem refletida no
espelho: abrir a porta e entrar.
Não faço a menor ideia do que tem do outro lado. E o
processo de petrificação continua, enquanto meu medo dele aumenta. O medo me
paraliza!
Não! Grito dentro de mim, pois minha voz não se faz
ouvir. Não sou aquela imagem do espelho. Não quero ser aquele ser enraizado num
pantano e atormentado por milhões de olhos, bocas e acusado por milhares de
dedos a lhe apontar as culpas. Isso eu tenho certeza!
Respiro fundo e penso na minha fé. Vejo que não sou
covarde. Ou sou? Quero fugir dali e só ha uma saída: a porta!
Quantas vezes eu ja fugi? Quantas vezes voltei à mesma
porta? Todas as vezes.
Num ato desesperado de sobrevivencia viro a chave,
rodo a maçaneta, abro a porta e entro para um local totalmente desconhecido.
A porta se fecha imediatamente atras de mim.
Estou ofegante, ainda com medo que me parece ser maior
ainda. Não sei onde estou. Estou sozinho! Estou com frio! Estou com medo!
Estou numa caverna... tem luz que não sei de onde vem,
muito fraca que mal da para vislumbrar o ambiente sombrio. Parece uma caverna,
mas não é! Olho para cima e vejo um céu de nuvens escuras, uma densa neblina e
procuro novamente a porta atras de mim, pois ainda estou com medo. La fora tem
os olhos, as bocas e os dedos... mas eles acusam a imagem no espelho e não a
mim... eu sou apenas alguem parecido com aquele ser prisioneiro de seus
tormentos. Não sou eu.
Não existe mais a porta. Não existe mais espelho. Não existe
nada. Apenas uma parede de pedra que se ergue atras de mim e vai até onde posso
ver, escondendo-se nas nuvens negras. Penso em escalar, porem é totalmente
lisa, cheia de musco, lodo, de onde sai umidade.
So aquela semi escuridão.
Vejo que existe uma trilha, um caminho, bem a minha
frente, cheia de folhas mortas e úmidas. Está escuro.
Procuro nas laterais alguma outra saída. Apenas pedras
gigantescas se ergem ao meu redor e parece que vão me esmagar se eu permanecer
ali.
Decido enfrentar a trilha. Sinto que existe um reflexo
de luz a indicar o caminho sinuoso.
Dou os primeiros passos inseguros. Minha visão vai se
acostumando a pouca iluminação do local e percebo que existe tipo uma escada
esculpida na rocha mas logo em seguida começa uma curva.
A curiosidade supera minha imobilidade. Quero ver onde
me levará aquele caminho. Eu não sei. Não posso mais ficar ali!
Decido buscar uma saída.
Vou subindo devagar e a curva se prolonga. Vou subindo
e mais curva que não me deixa mais que dois metros de visão adiante. Então me
impaciento e tento subir mais rápido... mais curva...nenhuma saida... nada mais
que curvas.
Canso.
Paro para respirar. Estou ofegante.
O despertador toca!
Viena, 25.02.16
FMWagner

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