Um Anjo
Estou subindo uma escada de pedra, ladeada por paredes
de pedras; uma curva que não tem fim.
Paro para retomar o fôlego.
Vejo, então, uma saída logo a minha frente. Realmente
eu estava em uma gruta ou em um tipo de canyon estreito.
Aquela saída para um local mais iluminado está coberta
por uma ramagem que pende da grande rocha. Passo por essa ramagem e vejo que do
outro lado tudo são flores, de todas as cores, de todos os tipos.
Um perfume suave e envolvente me delicia.
Encantado que estava com aquele lugar, que mais
parecia uma grande sala, criada por uma natureza celestial e benevolente, não
percebi que havia uma jovem de cabelos ruivos e olhos cor de violeta sentada
logo a frente, num banco de pedra sob um lindo e florido caramanchão.
Ela está olhando diretamente para mim com um sorriso
nos labios.
Fico ali imovel, sem saber o que fazer, o que dizer.
Não vejo nenhuma saida daquele lugar por onde eu poderia passar por ela sem
perturbar sua paz iluminada.
Ela é linda!
Fico em dúvida se sua pele é branca ou translúcida ou
se brilha emitindo uma clareza respandecente de luz branca. Então ela se
levanda e vejo que está descalça.
Seu vestido em um tom rosa esverdeado é de um tecido
tão suave que tambem me parece translúcido, transparente... não o é! Ele cai
elegantemente ate a altura dos joelhos. Na cabeça avermelhada uma guirlanda de
flores e ramos se entrelaça em tranças que prendem seus longos e ondulados
cabelos, evitando que os mesmos lhe caiam sobre o rosto de traços finos. Seus
olhos são violetas e tem a profundidade do infinito. No pescoço lhe pende um
fino cordão prateado e uma esmeralda divinamente lapidada. O colo alvo logo é
encoberto pelo vestido cujas mangas mais se assemelham a véus, que são levados
pela mais suave brisa, bailando sobre seus braços desnudos.
Ela vem em minha direção. Parece que flutua! O sorriso
continua nos seus labios rosados.
Penso que ela é um anjo, uma fada, um ser encantado da
floresta que eu pertubei com minha entrada intempestiva.
Ela, porém, abre os braços e me acolhe num abraço
quente e afetuoso. Sinto uma fragrancia suave de lavanda a lhe exalar dos
cabelos.
Ouço sua voz meiga, enquanto me cumprimenta.
“Seja bem vindo! Que saudade estava de ti! Chegaste no
momento exato que me preparava para ir ao teu encontro.”
Tive coragem e perguntei: “Quem é você? Nós nos
conhecemos?”
Ela se afastou um pouco não tirando as mãos dos meus
ombros, e olhou diretamente nos meus olhos. Sorrindo novamente me abraçou.
Desta vez senti seu coração no meu peito e meu coração
entrou automaticamente no mesmo compasso. Fechei os olhos e a emoção tomou
conta de mim completamente. Senti-me como num carrocel girando numa velocidade
alucinante.
Como um filme retalhado vi flashes de nossa infancia
juntos num planeta de céu amarelo ouro e sol branco com duas luas. Vi nossa
viagem quando jovens para uma missão, uma aventura. Vi nossa chegada no novo
lar, um planeta pequeno e azul onde iriamos trabalhar. Vi nossas vidas, nossa
união, nossa inquietação, nossa queda e nossa separação, suas causas e
consequencias e todo sofrimento que isso me causou.
Finalmente tomei consciencia que era dela que sentia
saudade. Era exatamente ela que eu procurava. Ela era a pessoa sem rosto que
via nos meus sonhos. Sua voz, a mesma que ouvia nos momentos mais tenebrosos de
minha vida, pedindo para me acalmar e me dando a certeza que tudo ficaria bem
novamente, incentivando a minha paciencia e coragem. Fora sua luz que me salvou
em cima do viaduto naquela noite que pedi para não matar um homem. Foi aquele
ser que me fez acordar a noite para livrar meus filhos de um piolho de cobra
sobre a cama, quando morava no interior; foi sua sombra que vi na varanda de
casa quando chorava desesperadamente; foi sua voz me chamando que ouvi todas as
vezes que estava em perigo!
As lágrimas banhavam meu rosto e eu soluçava como uma
criança no colo da mãe.
Era uma historia de quatro mil anos, passada assim em
minutos pela minha tela mental. Momentos de paz, de felicidade, de sorrisos e
de magoas, de rancores, de medo; ora culpa, ora saudade, noutros felicidade!
Uma sequencia lógica!
“É você!”
Então eu a abracei com força de uma saudade doída e o
amor inundou minha alma naquele momento.
Consegui apenas dizer: “Me perdoa!”
Ela me interrompeu com um beijo. Secou meu rosto das
lágrimas e suavemente me disse: “Não sou eu quem deve perdoar. Não é a mim que
você deve pedir perdão.”
Não entendi e, como se ela lesse meus pensamentos,
continuou: “ O amor verdadeiro não se magoa.”
Eu queria ficar ali, naquele abraço, quando ouvi
palmas surgindo do nosso lado esquerdo, parecendo saindo de outra caverna
escondida sob aquela cortina de ramagem florida.
O telefone tocou!
FMWagner
Viena, 24.02.2016


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