Fui visitar um amigo que há muito não via. Foi numa
tarde de sábado.
Ele ficou muito feliz ao me ver. Sentamos ali, no sofa
da sala, onde ja estavam preparados aperitivos e coisinhas para “biliscar”.
Ele foi me perguntando como ia a vida depois da
aposentadoria. Senti, contudo, que ele queria me falar da dele mais do que
ouvir sobre a minha!
Então foi contando que depois da separação da mulher,
os filhos e filhas foram espassando as visitas. Depois ligavam para se
desculpar pois estavam muito ocupados com suas proprias vidas e com muitos
problemas... quais, ele não fazia ideia.
Lembrava do tempo que os pequenos chegavam com suas
duvidas para que ele os ajudassem. Um cadaço para amarrar, uma tarefa da escola
complicada, as primeiras pedaladas, a primeira volta de carro, ouvindo
atentamente suas orientações sobre as marchas, o tempo do motor, a embreagem...
os conflitos da adolecencia com suas paixões... as duvidas sobre qual carreira
profissional seguir... enfim, muitas, muitas horas de conversas, perguntas.
Eles confiavam em sua experiencia de vida. Ele podia
ensina-los alguma coisa.
Agora, parecia ter emburrecido! Não sabia mais de
nada.
Enquanto trabalhava, a tecnologia se fez nova e ele
não pode acompanhar a contento; fez, porem, cursos de atualização para não se
sentir tão idiota diante dos filhos, verdadeiros experts em computadores,
celulares que podem tudo, até fazer ligações, internet.
Descobriu o mundo da internet! Entrou em redes
sociais.... saiu... pesquisou sobre assuntos de seu interesse...
Contudo, emburreceu!
A mãe se fora. Ele estava ali, apenas esperando a hora
de ir tambem.
Gostaria de passar mais tempo com os filhos, aquele
tempo de não tivera pois estava muito ocupado provendo o sustento, o lar e a
educação deles.
Agora tinha muito tempo... mas os netos... estes o
visitavam apenas quando os pais vinham e estes demoravam tanto...
As vezes se sentia mal, ia ao medico, cuidava-se. Praticava
esporte para melhorar sua saude de modo geral.
Seus amigos iam indo embora... haviam se mudado...
estava meio deslocado no novo ambiente.
Mudara-se para recomeçar uma nova vida, longe das
tristes lembranças do passado cruel. As lembranças o acompanharam, e ele lutava
velentemente contra elas, buscando a cada dia uma nova esperança, uma nova meta
para continuar vivendo!
O corpo havia mudado.
Não era mais tão ágil nem tão charmoso. Seu coração
emudecera e não queria mais uma companheira. Tinha certeza que havia vivido
tudo que um casamento poderia lhe proporcionar, tanto de bom quanto de ruim.
Gostava da tranquilidade de sua casa, agora um
apartamento de quarto e sala, que ele mesmo conseguia manter limpo e
agradavelmente aconchegante.
Tinha seus discos, musicas, filmes, livros, fotos...
estas guardadas em albuns que ficaram em algum lugar depois da ultima vistoria.
Todas as lembranças que queria ter estavam em sua cabeça, em seu coração.
Mesmo assim, sentindo-se realizado e consciente de que
sua missão de pai e marido havia sido cumprida, ficara o sentimento. Aquele bendito
sentimento de saudade que não queria lhe libertar. Sentia falta sim, da voz dos
filhos, da bagunça que faziam juntos; gostava de ve-los conversando entre si,
mesmo que ele ficasse ali, sentado naquela sua velha e confortavel poltrona,
sem ter conhecimento completo do assunto: valia apenas ouvir a voz, os
sorrisos, os trejeitos... aquilo lhe fazia muito feliz. Apreciar aqueles seres
que um dia tão pequeninos segurou nos braços e olhou para o ceu pedindo a Deus
ajuda para cria-los, pois não sabia nem por onde começar. Cada dia um novo
desafio! E agora, eles estavam ali, crescidos, tendo os mesmos medos que ele
teve. E nenhum lhe perguntava como tinha superado, como tinha conseguido!
Muitas vezes olhava para tras e não sabia como o
fizera.
Uma coisa tinha certeza: sua fé nunca abandonada; sua
coragem as vezes falhara, mas a fé no criador nunca abandonara.
Na despedida ele tinha retomado aquele brilho de
alegria no olhar.
Pensei: quantas vezes precisamos apenas sermos ouvidos
com carinho e atenção!
Wagner, F-M,
Viena, 11.03.2016

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