sexta-feira, 11 de março de 2016

Desabafo de um amigo




Fui visitar um amigo que há muito não via. Foi numa tarde de sábado.

Ele ficou muito feliz ao me ver. Sentamos ali, no sofa da sala, onde ja estavam preparados aperitivos e coisinhas para “biliscar”.

Ele foi me perguntando como ia a vida depois da aposentadoria. Senti, contudo, que ele queria me falar da dele mais do que ouvir sobre a minha!

Então foi contando que depois da separação da mulher, os filhos e filhas foram espassando as visitas. Depois ligavam para se desculpar pois estavam muito ocupados com suas proprias vidas e com muitos problemas... quais, ele não fazia ideia.

Lembrava do tempo que os pequenos chegavam com suas duvidas para que ele os ajudassem. Um cadaço para amarrar, uma tarefa da escola complicada, as primeiras pedaladas, a primeira volta de carro, ouvindo atentamente suas orientações sobre as marchas, o tempo do motor, a embreagem... os conflitos da adolecencia com suas paixões... as duvidas sobre qual carreira profissional seguir... enfim, muitas, muitas horas de conversas, perguntas.

Eles confiavam em sua experiencia de vida. Ele podia ensina-los alguma coisa.

Agora, parecia ter emburrecido! Não sabia mais de nada.

Enquanto trabalhava, a tecnologia se fez nova e ele não pode acompanhar a contento; fez, porem, cursos de atualização para não se sentir tão idiota diante dos filhos, verdadeiros experts em computadores, celulares que podem tudo, até fazer ligações, internet.

Descobriu o mundo da internet! Entrou em redes sociais.... saiu... pesquisou sobre assuntos de seu interesse...

Contudo, emburreceu!

A mãe se fora. Ele estava ali, apenas esperando a hora de ir tambem.

Gostaria de passar mais tempo com os filhos, aquele tempo de não tivera pois estava muito ocupado provendo o sustento, o lar e a educação deles.

Agora tinha muito tempo... mas os netos... estes o visitavam apenas quando os pais vinham e estes demoravam tanto...

As vezes se sentia mal, ia ao medico, cuidava-se. Praticava esporte para melhorar sua saude de modo geral.

Seus amigos iam indo embora... haviam se mudado... estava meio deslocado no novo ambiente.

Mudara-se para recomeçar uma nova vida, longe das tristes lembranças do passado cruel. As lembranças o acompanharam, e ele lutava velentemente contra elas, buscando a cada dia uma nova esperança, uma nova meta para continuar vivendo!

O corpo havia mudado.

Não era mais tão ágil nem tão charmoso. Seu coração emudecera e não queria mais uma companheira. Tinha certeza que havia vivido tudo que um casamento poderia lhe proporcionar, tanto de bom quanto de ruim.

Gostava da tranquilidade de sua casa, agora um apartamento de quarto e sala, que ele mesmo conseguia manter limpo e agradavelmente aconchegante.

Tinha seus discos, musicas, filmes, livros, fotos... estas guardadas em albuns que ficaram em algum lugar depois da ultima vistoria. Todas as lembranças que queria ter estavam em sua cabeça, em seu coração.

Mesmo assim, sentindo-se realizado e consciente de que sua missão de pai e marido havia sido cumprida, ficara o sentimento. Aquele bendito sentimento de saudade que não queria lhe libertar. Sentia falta sim, da voz dos filhos, da bagunça que faziam juntos; gostava de ve-los conversando entre si, mesmo que ele ficasse ali, sentado naquela sua velha e confortavel poltrona, sem ter conhecimento completo do assunto: valia apenas ouvir a voz, os sorrisos, os trejeitos... aquilo lhe fazia muito feliz. Apreciar aqueles seres que um dia tão pequeninos segurou nos braços e olhou para o ceu pedindo a Deus ajuda para cria-los, pois não sabia nem por onde começar. Cada dia um novo desafio! E agora, eles estavam ali, crescidos, tendo os mesmos medos que ele teve. E nenhum lhe perguntava como tinha superado, como tinha conseguido!

Muitas vezes olhava para tras e não sabia como o fizera.

Uma coisa tinha certeza: sua fé nunca abandonada; sua coragem as vezes falhara, mas a fé no criador nunca abandonara.

Na despedida ele tinha retomado aquele brilho de alegria no olhar.


Pensei: quantas vezes precisamos apenas sermos ouvidos com carinho e atenção! 



Wagner, F-M, 
Viena, 11.03.2016
                        

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