quarta-feira, 2 de março de 2016

O Outro (fragmentos)



     
                                                                                                                (*)

O outro (fragmentos)


Ouvi aplausos vindo de uma sombra atras de mim.

Imediatamente nuvens escuras encobriram a luminosidade do lugar.

Virei-me para ver quem estaria ali, aplaudindo nosso reencontro. Entretanto vi o rosto sarcástico de alguem há muito envelhecido e esquecido nas profundezas da memoria.

“Feliz? ... Você realmente adora uma ilusão!”

Fiquei assustado com aquelas palavras... estaria eu realmente vivendo uma ilusão apenas? E toda a emoção e a força dos sentimentos, seria apenas imaginação?

Enquanto aumentava minha dúvida, senti que ela se afastava mansamente de mim retornando para o mesmo banco de pedra e, depois de sentar se, levantou as pernas dobradas, abraçando-as repousando a cabeça sobre os joelhos, numa atitude infantil de quem espera. Seu olhar transmitia tranquilidade e sua fisionomia em nada se alterou.

“Você acha que ela é real? Idiota! Já fostes enganado quantas vezes? Quantas mais vai continuar sonhando com a felicidade? Isto não é pra você. Você é devedor! Tem que pagar pelos seus pecados! Quantos você ja destruiu, mutilou, matou, roubou... você quer ver?”

Então todas aquelas lembranças foram me assustando, como explosões em minha mente, na minha tela mental. Um filme terrivel de guerras, poder, sangue e traições.

“Vamos sair daqui.”

Mas não tem saída. A porta não existe mais. Pensei.

Olhei e vi novamente a mesma porta, no mesmo lugar por onde aquele outro havia entrado. E nesta porta um espelho. O espelho de minha mente, atormentada por tantos erros do passado.

Fiquei imovel, petrificado diante daquelas revelações. Eu nunca imaginara que tinha chegado a ser tão cruel! Entendia agora... ou não entendia mais nada.

Não tinha coragem de olhar para ela, que estava ali, eu sabia, esperando ver a minha decisão.

Eu me sentia leiloado, dividido, retalhado em milhões de pedaços!

Nada disso aqui existe! Pensei.

Então ouvi a voz dela: “Se não existe o bem, o mal tambem não. Tudo é apenas ilusão!”

Vi a ira se formar nos olhos do outro que tentou se aproximar dela. Temendo pelo que ele pudesse fazer a um ser tão frágil, me coloquei entre ambos.

“Você ainda defende a mulher que um dia te traiu e te levou a morte?”

Permaneci calado diante daquela revelação, mas continuei ali, olhando de frente para o outro.

Quem é você? Perguntei.

“Eu sou teu bom senso. Eu sou quem te defende. Eu sou quem te protege. Eu sempre estive do teu lado. Eu sou teu melhor amigo! E não estou sozinho! Tenho um companheiro e auxiliar que nunca deixou nada te ferir. Ele está do outro lado daquela porta a nos esperar.

Estou te chamando para a realidade da vida. O trabalho, a dedicação a sua familia, a obrigação de ser alguém respeitado na sociedade! Isso é a verdadeira liberdade e felicidade. O resto é sonho! Ilusão!”

Estava confuso. Profundamente confuso.

Olhei novamente para ela... seu sorriso carinhoso e seu olhar me transmitiam tranquilidade, que nunca havia sentido antes.

Queria sair dali! Queria apenas fugir daquela situação!

“Você nunca poderá fugir de mim. Estou com você deste o inicio! E estarei até o final.”

Olhei para o céu, mesmo com nuvens carregadas e pedi socorro a Deus. Um sinal de que deveria fazer.

Vi um onibus parado do outro lado de uma rua que até ha pouco não existia. Atravessei a rua correndo e entrei no onibus.

O motorista sorriu e fechou a porta atras de mim.

Com a arrancada do veículo, senti que caia...

Acordei.

Era madrugada!

Viena, 02.03.2016


Wagner, F-M


(*) Foto: Google Imagens

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