(*)
O outro (fragmentos)
Ouvi aplausos vindo de uma sombra atras de mim.
Imediatamente nuvens escuras encobriram a luminosidade
do lugar.
Virei-me para ver quem estaria ali, aplaudindo nosso
reencontro. Entretanto vi o rosto sarcástico de alguem há muito envelhecido e
esquecido nas profundezas da memoria.
“Feliz? ... Você realmente adora uma ilusão!”
Fiquei assustado com aquelas palavras... estaria eu
realmente vivendo uma ilusão apenas? E toda a emoção e a força dos sentimentos,
seria apenas imaginação?
Enquanto aumentava minha dúvida, senti que ela se
afastava mansamente de mim retornando para o mesmo banco de pedra e, depois de
sentar se, levantou as pernas dobradas, abraçando-as repousando a cabeça sobre
os joelhos, numa atitude infantil de quem espera. Seu olhar transmitia
tranquilidade e sua fisionomia em nada se alterou.
“Você acha que ela é real? Idiota! Já fostes enganado
quantas vezes? Quantas mais vai continuar sonhando com a felicidade? Isto não é
pra você. Você é devedor! Tem que pagar pelos seus pecados! Quantos você ja
destruiu, mutilou, matou, roubou... você quer ver?”
Então todas aquelas lembranças foram me assustando,
como explosões em minha mente, na minha tela mental. Um filme terrivel de
guerras, poder, sangue e traições.
“Vamos sair daqui.”
Mas não tem saída. A porta não existe mais. Pensei.
Olhei e vi novamente a mesma porta, no mesmo lugar por
onde aquele outro havia entrado. E nesta porta um espelho. O espelho de minha
mente, atormentada por tantos erros do passado.
Fiquei imovel, petrificado diante daquelas revelações.
Eu nunca imaginara que tinha chegado a ser tão cruel! Entendia agora... ou não
entendia mais nada.
Não tinha coragem de olhar para ela, que estava ali,
eu sabia, esperando ver a minha decisão.
Eu me sentia leiloado, dividido, retalhado em milhões
de pedaços!
Nada disso aqui existe! Pensei.
Então ouvi a voz dela: “Se não existe o bem, o mal
tambem não. Tudo é apenas ilusão!”
Vi a ira se formar nos olhos do outro que tentou se
aproximar dela. Temendo pelo que ele pudesse fazer a um ser tão frágil, me
coloquei entre ambos.
“Você ainda defende a mulher que um dia te traiu e te
levou a morte?”
Permaneci calado diante daquela revelação, mas
continuei ali, olhando de frente para o outro.
Quem é você? Perguntei.
“Eu sou teu bom senso. Eu sou quem te defende. Eu sou
quem te protege. Eu sempre estive do teu lado. Eu sou teu melhor amigo! E não
estou sozinho! Tenho um companheiro e auxiliar que nunca deixou nada te ferir. Ele
está do outro lado daquela porta a nos esperar.
Estou te chamando para a realidade da vida. O
trabalho, a dedicação a sua familia, a obrigação de ser alguém respeitado na
sociedade! Isso é a verdadeira liberdade e felicidade. O resto é sonho! Ilusão!”
Estava confuso. Profundamente confuso.
Olhei novamente para ela... seu sorriso carinhoso e
seu olhar me transmitiam tranquilidade, que nunca havia sentido antes.
Queria sair dali! Queria apenas fugir daquela
situação!
“Você nunca poderá fugir de mim. Estou com você deste
o inicio! E estarei até o final.”
Olhei para o céu, mesmo com nuvens carregadas e pedi
socorro a Deus. Um sinal de que deveria fazer.
Vi um onibus parado do outro lado de uma rua que até ha
pouco não existia. Atravessei a rua correndo e entrei no onibus.
O motorista sorriu e fechou a porta atras de mim.
Com a arrancada do veículo, senti que caia...
Acordei.
Era madrugada!
Viena, 02.03.2016
Wagner, F-M
(*) Foto: Google Imagens

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