terça-feira, 16 de junho de 2015

Mesmices



Mesmices

Hoje resolvi sair de casa para comprar café. O clima ameno nos convidou a sentar num banco da Keplerplatz. Ficamos ali, observando o ir e vir sempre no agitado passo europeu.
Até mesmo por brincadeira, para matar o tempo e esperar a hora do almoço, passamos a comentar o vestuário: a moda das ruas, do trabalhador que usa orgulhosamente seu uniforme, que indica sua profissão. E a conversa, como sempre, rolou a tipo de: “e se fosse no Brasil?...”
Será que o pintor, com aquele macacão branco, sujo de tinta, com aquele sapato lotado de tinta, que vai subir no onibus e se sentar ao lado daquela senhora de salto alto, toda maquiada... seria tratado com a mesma imparcialidade? Acredito que não.
Sera que aquele cara que trabalha de paletó e gravata e que vai apressado com seu celular de última geração, subiria no mesmo onibus que sobe aquela estrangeira que com certeza trabalha de faxineira? E aquela negra, com o salto alto, de saia vermelha curtinha, com aquele cabelo cheio de trancinhas seria tratada com a mesma gentileza imparcial pelo loiro de olhos claros que sentou do seu lado?
Claro que aqui também tem aqueles que são, digamos, estranhos, e que provocam sempre protestos, nunca em público. Na grande maioria são por causa dos véus usados pelos fies de Maomé, ou as famigeradas burcas, que são vistas como um ultrage a liberdade feminina! Porém não são proibidas e alguns olhares vão da piedade ao total desconhecimento do fato.
Até brinquei dizendo que as pessoas, quando andam ou sentam-se nos metros ou bondes ou onibus, colocam uma capa nos olhos e não veem ninguém, apesar de evitarem ao máximo o toque dos corpos!



A liberdade individual acarreta certo isolamento pessoal. Cada um tem seu limite de liberdade, desde que não queira que o outro use, vista, seja, ou pense igual a si. Então, eu posso usar o que quiser. Posso fazer da minha vida o que quiser, contanto que eu trabalhe para me manter e pague meus impostos. Respeite a liberdade do outro, inclusive o silencio do repouso noturno.
Alguns enterram a cara num livro, outros no jornal, outro no seu mundo interior.
Não há como comparar. Questão de educação, questão de cultura, ou apenas o jeito de ser do povo, que aprendeu a calar, a ser retraido, viver sua vida sem dar satisfações, a impedir que o vizinho saiba de sua vida ou opinião. Que vai às ruas só quando o assunto incomoda a coletividade, então se vê a capacidade de organização politica daqueles que andam apressada e anonimamente pelas ruas desta cidade milenar.



Por isso, a solidão é a companheira mais frequente desse povo que valoriza a familia e os relacionamentos, sua privacidade e sua comunidade, sua acendencia e decendencia. Talvez sejam preconceituosos, mas escondem isso muito bem. Poucos sorrisos, mas serviços eficientes. Poucos elogios, mas cumprimento de metas.
Paramos com a comparação! Não tem como comparar. São duas realidades totalmente diferentes, com historias diferentes, com objetivos diferentes.
Respeitamos o seu jeito de ser.
Fomos almocar tranquilamente, aproveitando o clima primaveril!


16.6.2015

Um comentário:

  1. Descreveu com primor as atitudes do povo vienense...
    Mais uma vez parabéns pelo belíssimo texto.

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