Mesmices
Hoje resolvi sair de casa para comprar café. O clima
ameno nos convidou a sentar num banco da Keplerplatz. Ficamos ali, observando o
ir e vir sempre no agitado passo europeu.
Até mesmo por brincadeira, para matar o tempo e
esperar a hora do almoço, passamos a comentar o vestuário: a moda das ruas, do
trabalhador que usa orgulhosamente seu uniforme, que indica sua profissão. E a
conversa, como sempre, rolou a tipo de: “e se fosse no Brasil?...”
Será que o pintor, com aquele macacão branco, sujo de
tinta, com aquele sapato lotado de tinta, que vai subir no onibus e se sentar
ao lado daquela senhora de salto alto, toda maquiada... seria tratado com a
mesma imparcialidade? Acredito que não.
Sera que aquele cara que trabalha de paletó e gravata
e que vai apressado com seu celular de última geração, subiria no mesmo onibus
que sobe aquela estrangeira que com certeza trabalha de faxineira? E aquela
negra, com o salto alto, de saia vermelha curtinha, com aquele cabelo cheio de
trancinhas seria tratada com a mesma gentileza imparcial pelo loiro de olhos
claros que sentou do seu lado?
Claro que aqui também tem aqueles que são, digamos,
estranhos, e que provocam sempre protestos, nunca em público. Na grande maioria
são por causa dos véus usados pelos fies de Maomé, ou as famigeradas burcas,
que são vistas como um ultrage a liberdade feminina! Porém não são proibidas e
alguns olhares vão da piedade ao total desconhecimento do fato.
Até brinquei dizendo que as pessoas, quando andam ou
sentam-se nos metros ou bondes ou onibus, colocam uma capa nos olhos e não veem
ninguém, apesar de evitarem ao máximo o toque dos corpos!
A liberdade individual acarreta certo isolamento
pessoal. Cada um tem seu limite de liberdade, desde que não queira que o outro
use, vista, seja, ou pense igual a si. Então, eu posso usar o que quiser. Posso
fazer da minha vida o que quiser, contanto que eu trabalhe para me manter e
pague meus impostos. Respeite a liberdade do outro, inclusive o silencio do
repouso noturno.
Alguns enterram a cara num livro, outros no jornal,
outro no seu mundo interior.
Não há como comparar. Questão de educação, questão de
cultura, ou apenas o jeito de ser do povo, que aprendeu a calar, a ser
retraido, viver sua vida sem dar satisfações, a impedir que o vizinho saiba de
sua vida ou opinião. Que vai às ruas só quando o assunto incomoda a
coletividade, então se vê a capacidade de organização politica daqueles que
andam apressada e anonimamente pelas ruas desta cidade milenar.
Por isso, a solidão é a companheira mais frequente
desse povo que valoriza a familia e os relacionamentos, sua privacidade e sua
comunidade, sua acendencia e decendencia. Talvez sejam preconceituosos, mas
escondem isso muito bem. Poucos sorrisos, mas serviços eficientes. Poucos elogios,
mas cumprimento de metas.
Paramos com a comparação! Não tem como comparar. São duas
realidades totalmente diferentes, com historias diferentes, com objetivos
diferentes.
Respeitamos o seu jeito de ser.
Fomos almocar tranquilamente, aproveitando o clima
primaveril!
16.6.2015



Descreveu com primor as atitudes do povo vienense...
ResponderExcluirMais uma vez parabéns pelo belíssimo texto.