terça-feira, 16 de junho de 2015

Será que posso falar do assunto? - Preconceito!



Será que posso falar do assunto? Preconceito!

Parece que eu decidi vir a esse mundo para chocar as pessoas que convivem ou conviveram comigo, no amago de seus coracoes. Nunca fiz discursos, nao atingi um grande publico, nunca me meti nas lutas politicas ou de classes sociais, mas decidi viver minha vida enfrentando o que ha de mais sujo, nogento e porco: o preconceito!
Nunca me senti vitima, apesar de sentir na pele a dor dessa punhalada! Nunca me senti incapaz e nunca dei terreno para que pudessem me ferir, mas senti as feridas das linguas firinas, dos olhares de desden ou de mangofa, e apenas sorri, com piedade destes pobres seres que ainda vao demorar muito a entender o que é a vida em harmonia, o respeito pelo outro, e tantos outros valores que nao sao ensinados na escola, apesar de estar escrito nos grandes livros de pensadores, filosofos e religiosos!
Vamos lá.
Nasci no sexo feminino! Uma menina! “Mais uma mulher para sofrer nesta vida!” – ouvi muito esse comentario de outras mulheres mais velhas! Isso se referindo a toda especie de violencia, domestica e nao domestica, que a mulher sofre em nossa sociedade, desde a imposicao da moda, com roupas desconfortaveis, sapatos de salto que quebram veias e criam varises, ou seja, nao saudaveis, ate a resignacao de determinadas profissoes, jeitos e trejeitos, modo de se conduzir socialmente, espacos reservados e, como nao poderia deixar de ser, a inconfundivel companhia masculina para lhe dar apoio e protecao. Ouvi de um homem bem sincero que a mulher nunca sera respeitada por ser mulher por um homem, mas um homem vai respeitar o outro homem com quem a mulher se acompanha. Entao, mulher sozinha quer dizer: vagabunda, puta, mulher de todos, sem vergonha, sem DONO! Pronto, estava escrita minha sina. Eu nasci no sexo feminino, sem um penis, com uma vagina cobicada por todos os machos, e em busca de um macho que me “completasse” e fizesse os outros notarem que a minha vagina era exclusiva do penis dele!
Para entornar o caldo, fiquei orfa muito cedo. Aos nove meus pais ja haviam morrido. E desde sete dias de nascida ja era criada em outra familia! Entao, na idade escolar... la vai contar toda a historia da minha vida para todo mundo que perguntava por que meu nome era diferente do nome do meus pai – tutor! Um saco! E naquele fase de auto-afirmacao com o grupo foi terrivel ver as colegas fazerem aquele gestinho de ... vixe maria, essa nao vale a pena ter no nosso grupo... e simplesmente se afastarem, esquecendo de convidar para festas ou encontros... comecei a aprender a conviver comigo!!! Isso foi fantastico! E para melhorar mais ainda, meu tutor era negro, analfabeto e ... pasmem... policial! Tudo que uma sociedade ja contruida em cima de castas queria para me excluir. Mas essa eu ja tirei de letra! Enfiei a cara nos livros!
Decidi me dedicar aos estudos para ter uma profissao: escolhi uma que me faria lutar contra as injusticas: fazer o curso de Direito, ate mesmo por que achava tudo muito errado! Meu coracao clamava por justica, pois eu convivia diariamente com a injustica da cegueira que via nos bens materiais e nas origens sociais o grande valor das pessoas. Ninguem estava querendo saber se preto tem amor, sentimentos, se precisava de escola... somente a forca de trabalho, para produzir para o branco, para o rico, para o filho de “boa familia”! Puxa, minha familia, apesar de nao ser minha, nao era boa?
Continuei tendo como melhores amigos Platao, Socrates, Machado de Assis, Jose de Alencar, Sir Artur Coner Doyle, Victor Hugo, Julio Verne, Eca de Queiros, Vinicius de Morais, e todos aqueles metres do Direito a que tinha acesso! Deixei meu pensamento livre, continuei livre!!! Sem contar que com 14 anos ja tinha lido toda biblia sagrada!!!!
Foi entao que a vida me obrigou a trabalhar para me sustentar e sustentar o sonho de ter um curso de nivel superior... entre na policia!!! Virei policial tambem! Mais uma!
Poxa vida! Mulher e policial!.. um verdadeiro perigo para os colegas que alem de terem que exercer sua funcao nas ruas, ainda tinham que “tomar de conta” da colega, por que era MULHER!!!! Sem capacidade fisica de levar um soco e de revidar, que nao conseguia pegar numa arma!!!! Mas eu fui de leve. Entrei como escriva, e por isso estava resguardada no cartorio, mexendo com papeis em um servico burocratico! Aquilo me dava um ódio! Eu queria ir para a rua... e ninguem confiava em mim!!! Precisei mostrar meu valor... e o fiz no curso para delegado de policia quando tirei o primeiro lugar da turma. E nao foi por simpatia de ninguem, muito pelo contrario, eu percebia quando queriam amenizar para o meu lado e dizia NAO, eu quero participar como qualquer policial! E assim foi. Kkkkk adorei!!! Mas foi so isso!
Passei anos mostrando a minha competencia profissional para quem nunca quis ver e ainda ouvi de um colega, que outra delegada tinha conseguido a titulariadade de uma delegacia que era meu sonho, por que ela era “de boa familia!” sei, ele se expressou mal... afinal, muito mal mesmo! Kkkkkk deixa pra la, me manda para aquelas que ninguem quer! Eu confio em mim! E la fui eu para o interior....... adorei. Desenvolvi minha criatividade, minha capacidade de organizacao, minha responsabilidade...e quando tudo estava organizado, la vinha um colega homem para o lugar e eu era remetida para outro chiqueiro de porco! Sera que era por que eu nao era de “boa familia”? nada tenho a reclamar, muito pelo contrario. Sei que nunca irao admitir que eu fui uma excelente profissional, alem daqueles que trabalhavam diretamente comigo, que eu conseguia fazer ver minhas qualidade acima da dor de ser comandado por uma mulher!
Eu decidi em determinado momento da vida, ser mae. Eu fui, ai, mais uma vez olha eu ai indo de frente com o contra-social: fui mae solteira! Uma vergonha para minha “familia”! Assinei o atestato de puta! E ouvia as perguntas de duplo sentido: “Quem é o pai?”... ao que sorria e respondia sarcasticamente: “Nao sei, ainda nao nasceu... depois que nascer vou ver com quem se parece!” Como atingia o alvo, e olha sempre atirei muito bem, so me perguntavam uma vez! E la ia eu perdendo mais espaco na sociedade!
Esse espaco que hoje nao me faz muita falta nao...
Casei, com alguem da roca, pobre e que tambem “nao era de boa familia”, so para satisfazer a lingua dos poderosos... depois de separei... e teve gente que foi me visitar para me convidar para uma saidinha no motel, “afinal eu estava separada mesmo”! Ou seja, vagina livre!!!!! Sabe o que aconteceu, cheguei bem perto, com um sorriso malicioso e disse: “Sou lésbica! Gosto de mulher igual a voce! Tem alguma para me indicar?”
Choquei?! Claro, nunca mais falou comigo. Pensou que eu estava brincando! Pois nao estava nao.... era a pura verdade. É a pura verdade! Mais uma! Nossa será que nunca vou cansar de ir de frente contra a sociedade? Continuei adorando ver os olhares, os gestos, os trejeitos! Como me divertia!
Sabe da ultima! Aderi a Umbanda. Assumi que gosto de um ritual umbandista e que tenho fé nos Orixas!
E agora estou ficando velha! Meus cabelos são brancos, grisalhos... e me recuso a pinta-los. 
Hoje fico procurando... sera que falta mais alguma coisa? A vida é tao divertida!
Eu me divirto com o preconceito dos outros, com as violencias que sao capazes, eu suportei e superei, passei por duros caminhos ate chegar hoje e dizer: antes so que junto de voces, que ainda estao dominados pela intolerancia e preconceito.
Realmente, o preconceito é o analfabetismo da alma!

Viena, 16.6.2015


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